O mal se infiltra no Sistema Educacional.

“…EU SOU TÃO BOM QUANTO VOCÊ.” Será?!?!?

Fitafuso propõe um brinde, em um jantar oferecido aos jovens demônios, na Faculdade de Treinamento de Tentadores. C.S.Lewis – 1961

Nessa terra promissora, o espírito do eu sou tão bom  quanto você já passou a ser algo mais do que uma influência puramente social. Ele começa a se infiltrar no  sistema educacional. Não posso dizer com certeza até  onde ele foi no presente momento. E isso tampouco  importa. Uma vez que vocês captarem a tendência, poderão facilmente prever seus desdobramentos futuros;  especialmente se nós mesmos desempenharmos um papel nesses desdobramentos. O princípio básico da nova  educação é que os alunos lentos e vagabundos não devem sentir-se inferiores aos alunos inteligentes e esforçados. Isso seria “antidemocrático”. Essas diferenças entre os alunos – porque elas são, muito obviamente, diferenças individuais – precisam ser disfarçadas. Isso pode  ser feito em vários níveis. Nas universidades, as provas  devem ser elaboradas de tal forma que quase todos os  alunos consigam boas notas. Os vestibulares devem ser  feitos para que todos ou quase todos os cidadãos possam entrar nas universidades, quer tenham a capacidade  (ou o desejo) de se beneficiarem com uma educação superior, quer não. Nas escolas, as crianças que forem lentas ou preguiçosas demais para aprender línguas, matemática e ciências podem ser levadas a fazer aquilo que as  crianças costumavam fazer em seu tempo livre. É possível deixá-las, por exemplo, fazer bonequinhos de argila  e dar a isso o nome de Educação Artística. Mas durante todo esse tempo jamais deve haver nenhuma menção  ao fato de que elas são inferiores às crianças que estão  efetivamente estudando. Qualquer bobagem em que estiverem envolvidas deve ter – acho que os ingleses já  estão usando essa expressão – “igualdade de valor”. E é  possível conceber um esquema ainda mais drástico. As  crianças que estiverem aptas a ser transferidas para uma  classe mais adiantada podem ser mantidas na classe anterior usando métodos artificiais, com a justificativa de  que as outras poderiam ter algum tipo de trauma- por  Belzebu, que palavra mais útil! – caso ficassem para trás. 

Assim, o aluno mais inteligente permanece democraticamente acorrentado a seus colegas da mesma idade em toda a sua carreira escolar, e um menino capaz de compreender Ésquilo ou Dante é obrigado a ficar sentado ouvindo seus coevos tentando soletrar “O VOVÔ VIU  A UVA”.

Resumindo, não é absurdo esperar pela abolição  praticamente total da educação quando finalmente o  eu sou tão bom quanto você sair vitorioso. Todos os incentivos para aprender e todas as penalidades para a  ausência do desejo de aprender desaparecerão. Os poucos que quiserem aprender não poderão fazê-lo; afinal,  quem são eles para se destacarem entre seus colegas? E,  de qualquer modo, os professores – ou devo dizer “babás”? – estarão excessivamente ocupados tranqüilizando os ignorantes e dando-lhes tapinhas nas costas para perderem tempo ensinando de verdade. Não precisaremos mais ter de planejar e trabalhar arduamente para espalhar a arrogância serena ou a ignorância incurável entre os homens. Os próprios vermezinhos farão isso por nós.

É claro que isso só aconteceria se toda a educação se tornasse estatal. Mas é isso que acontecerá, pois faz parte do mesmo movimento. Os impostos, inventados para esse propósito, estão acabando com a classe média, a classe que estava disposta a economizar e fazer sacrifícios para que seus filhos recebessem uma educação privada. A remoção dessa classe, além de estar ligada à abolição da educação, felizmente é mais uma conseqüência inevitável daquele espírito que diz eu sou tão bom quanto você. Foi este, afinal de contas, o grupo social que deu aos humanos a esmagadora maioria de seus cientistas, físicos, filósofos, teólogos, poetas, artistas, compositores, arquitetos, juristas e administradores. Se alguma vez já houve um bando de galhos que precisavam ter suas pontas cortadas para ficarem no mesmo nível das outras, certamente esse grupo era composto pela classe média. Como disse um político inglês, pouco tempo atrás, “a democracia não deseja grandes homens”.
Seria inútil perguntar a essa criatura se por desejar  ele quer dizer “precisar” ou “gostar de”. Mas é melhor deixar tudo às claras, pois aqui a pergunta de Aristóteles surge novamente. 

Nós, no Inferno, certamente ficaríamos felizes com o desaparecimento da Democracia no sentido estrito da palavra: a tal organização política. Como todas as formas de governo, ela em geral trabalha em nosso favor; mas, no geral, está menos do nosso lado do que as outras formas. E devemos nos dar conta de que “democracia”, no seu sentido diabólico (sou tão bom quanto você, Gente Como a Gente, Sensação de Pertencer a um Grupo), é o instrumento mais valioso que poderíamos desejar para extirpar as Democracias políticas da face da terra.
Pois a “democracia”, ou o “espírito democrático” (no sentido diabólico), produz uma nação sem grandes homens, uma nação feita basicamente de analfabetos, moralmente fracos, devido à falta de disciplina na juventude, e frágeis devido a toda uma vida de intemperança. E é isso que o Inferno deseja que cada povo democrático seja. Porque quando uma nação dessas acaba entrando em conflito com outra nação onde as crianças foram diligentes na escola, onde o talento é valorizado e onde a massa ignorante não opina em assuntos de ordem pública, só um resultado é possível.

Recentemente uma Democracia ficou bastante surpresa quando descobriu que a Rússia tomou-lhe a dianteira em matéria de ciência. Ah, um adorável exemplo da cegueira humana! Se toda a sociedade tende a opor-se a qualquer tipo de excelência, por que esperavam que seus próprios cientistas se sobressaíssem?

É nossa tarefa encorajar o comportamento, o estilo, enfim, toda uma atitude mental que as democracias  naturalmente apreciam, porque são exatamente essas  coisas que, se forem deixadas à vontade, acabarão por  destruí-las. Vocês podem até mesmo perguntar-se por  que os próprios humanos não enxergam isso. Mesmo  que eles não leiam Aristóteles (pois isso seria antidemocrático), era de esperar que a Revolução Francesa lhes  tivesse ensinado que o comportamento que os aristocratas apreciam não é o mesmo comportamento que preserva a aristocracia. Pois então teriam aplicado o mesmo  princípio a todas as formas de governo. 

Mas eu não quero terminar meu discurso desse modo. Eu não gostaria de encorajar – que o Inferno nos  livre! – em suas mentes aquela ilusão de que vocês têm a  obrigação de estimular nas mentes das suas vítimas humanas a ilusão de que o destino das nações é, em si mesmo, mais importante do que o das almas individuais. A  derrocada dos povos livres e a multiplicação dos Estados escravos são, para nós, apenas um meio (e é claro  que são, além disso, bastante divertidos); mas o verdadeiro objetivo é a destruição dos indivíduos. Pois somente  os indivíduos podem ser salvos ou condenados à danação, somente eles podem tornar-se filhos do Inimigo ou alimento para nós. O valor derradeiro, para nós, de cada revolução, guerra ou fome está na angústia de cada um, na traição, no ódio, na ira e no desespero que ela poderá produzir. A idéia do eu sou tão bom quanto você é um útil recurso para a destruição das sociedades democráticas. Mas ele tem um valor ainda maior como um fim em si mesmo, como um estado de espírito, o qual, ao excluir necessariamente a humildade, a caridade, a satisfação e todos os prazeres da gratidão e da admiração, é capaz de desviar um ser humano para bem longe de quase todos os caminhos que poderão finalmente levá-lo aos Céus.

Inspirado na obra de C.S.Lewis, “Cartas de um diabo à seu aprendiz” (1940-1941)

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About Tropo

Tetraneto do Padre Manoel Moreira Maia. Neto de Ricciotti Volpe e Leonor Costa Volpe.
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