Há um instante silencioso em que o coração se volta — não para o alto, mas para si mesmo.
É quando o homem, cansado de esperar,
decide ser dono da própria luz, e caminha sem perceber que pisa nas sombras.
Dar as costas a Deus não é um gesto do corpo,
mas da alma. É esquecer o olhar que sustenta,
é silenciar a voz que chama, é trocar o infinito por um espelho.
No início, parece liberdade. Mas logo o vazio se instala — porque longe da fonte, a sede não passa, apenas cresce.
Mesmo assim, Deus não se afasta.
Ele permanece onde sempre esteve: atrás de nós, com o olhar manso de quem espera o retorno.
E quando, cansados do escuro,
finalmente viramos o rosto,
descobrimos que a luz nunca se foi —
fomos nós que havíamos fechado os olhos.





