Inspirado em Deuteronômio l 1:1-46

“Os lugares onde a vida fica parada”

Existem momentos em que a vida não trava por falta de caminho. Trava por excesso de medo. Há pessoas que permanecem anos diante de decisões que poderiam ter sido iniciadas com pequenos passos. Não porque sejam fracas, mas porque a mente humana, quando dominada pela insegurança, transforma o desconhecido em ameaça.

O texto de Deuteronômio descreve uma longa travessia. Uma caminhada que poderia ter sido breve, mas se prolongou por décadas. Isso acontece também dentro da experiência humana. Muitas vezes o tempo emocional não acompanha o tempo da vida. O corpo segue em frente, mas a mente continua parada em antigos desertos: medos antigos; culpas repetidas; traumas não elaborados; relações mal encerradas; versões antigas de si mesmo.

Há quem continue vivendo internamente em lugares que já terminaram há muito tempo. O mais interessante é que o problema do povo não era ausência de possibilidade. A terra diante deles era fértil. O futuro existia. A oportunidade estava próxima. O problema era a maneira como enxergavam os obstáculos. Os desafios pareceram gigantescos. As dificuldades foram ampliadas pela ansiedade coletiva. O medo contaminou a percepção. E isso continua extremamente atual.

Quando alguém vive dominado pela ansiedade: os riscos parecem maiores do que realmente são; as próprias capacidades diminuem; o futuro parece ameaçador; qualquer mudança parece perigosa. A mente começa a criar narrativas internas de fracasso antes mesmo da tentativa existir. “Não vai dar certo.” “Não sou capaz.” “É tarde demais.” “Talvez eu não consiga suportar.” Esses pensamentos, repetidos continuamente, tornam-se uma espécie de prisão invisível.(estudar a “Teoria da Permissão” do Elton Euler).

Outro aspecto importante do texto é que o medo excessivo produz paralisia, mas a impulsividade também produz sofrimento. Primeiro houve recuo. Depois houve precipitação. Isso revela algo importante: nem toda pressa é coragem. Às vezes é apenas desespero tentando compensar longos períodos de estagnação. A maturidade emocional nasce quando a pessoa aprende a caminhar sem precisar: controlar tudo; prever tudo; garantir tudo. Porque a vida raramente oferece certezas completas.

O texto também mostra algo profundamente humano: a tendência de permanecer tempo demais em lugares emocionais dolorosos. Há pessoas que vivem estacionadas: em ressentimentos; em perdas; em arrependimentos; em identidades construídas pela dor. Como se o sofrimento tivesse deixado de ser experiência e passado a ser definição de identidade. Mas desertos não foram feitos para residência permanente.

Crises possuem função de travessia. O problema começa quando a pessoa transforma um período difícil em morada definitiva da mente. Talvez crescer emocionalmente seja exatamente isto: Reconhecer que o medo existe… mas não permitir que ele decida toda a direção da vida. Porque sempre haverá gigantes. Sempre haverá incertezas. Sempre haverá riscos.

Mas também sempre existirá a possibilidade de continuar caminhando.

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About Tropo

Tetraneto do Padre Manoel Moreira Maia. Neto de Ricciotti Volpe e Leonor Costa Volpe.
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